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Revista VOCÊ S/A, edição 119, maio de 2008

Voto de confiança. Uma nova certificação que atesta a gestão profissional melhora as chances de fazer carreira em ONGs - Por ROBERTA LIPPI

Se os recentes escândalos envolvendo repasses de verbas do governo para Organizações Não Governamentais (ONGs) arranharam a imagem das entidades no Brasil, uma certificação criada pela Société Générale de Surveillance (SGS), da Suíça, pode ser o aliado que esse tipo de instituição precisa para ganhar ou reconquistar a confiança da sociedade e dos investidores interessados em colocar recursos no Terceiro Setor. Para os profissionais também é uma boa notícia, já que as instituições certificadas precisam apresentar bons níveis de governança corporativa, o que melhora as chances de fazer carreira nessa área. Hoje, são 300 000 entidades no país, que movimentam cerca de 40 bilhões de reais por ano e empregam mais de 1,5 milhão de pessoas. A maior procura está entre jovens na faixa dos 30 anos, que querem migrar do setor privado para ter um trabalho que cause impacto positivo no mundo, diz o headhunter Fábio Pereira, da Michael Page, empresa de busca de executivos de São Paulo. Nessa idade, eles podem ainda se dar ao luxo de ter salários mais baixos. Os ganhos no Terceiro Setor estão, em média, 20% aquém dos salários que são pagos na iniciativa privada.
 

A SGS, líder global em certificações emitiu, no mês de março, o segundo certificado no Brasil do NGO Benchmarking, criado para alinhar ONGs às boas práticas mundiais de governança. A certificação foi para a Associação Horizontes, de São Paulo, que promove a capacitação profissional entre a população de baixa renda. Em 2007, a Futurong, que lida com crianças em situação de risco, também em São Paulo, já havia recebido o selo. Para isso, a ONG precisa alcançar um mínimo de 70% de conformidade a partir de uma rigorosa auditoria que analisa o desempenho ético, operacional e financeiro e a melhoria contínua.
 

ATESTADO DE QUALIDADE

Ex-executivo de uma empresa da área de tecnologia da informação, o presidente da associação Horizontes, Marcelo Rocha, de 48 anos, montou a entidade em 2004 com dois outros colegas do mercado. Hoje tem 15 funcionários contratados, além dos profissionais que trabalham conforme a demanda por projetos. A certificação vai nos diferenciar nesse momento em que as ONGs estão apanhando, diz. É possível que, com uma assinatura como essa, as entidades atraiam mais recursos e também mais profissionais de mercado interessados em trabalhar nelas, afirma o professor Luiz Carlos Merege, coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor da Fundação Getulio Vargas, de São Paulo, parceira da SGS no Brasil.
 

Ter um emprego em uma ONG certificada é também um selo de qualidade para o próprio trabalho. Coincidência ou não, as duas entidades que conseguiram o aval da SGS no Brasil são geridas por executivos que vieram de empresas tradicionais e que encaram a gestão dessas entidades como a de uma companhia privada. Lucas Duarte, de 32 anos, diretor executivo e um dos idealizadores da Futurong, é um advogado de profissão que mudou de atividade pela satisfação que o projeto social proporciona. Buscamos uma gestão profissional com um tom humano, diz. Ao todo, a instituição emprega 75 pessoas, 13 delas gestores de projetos ou departamentos. Os salários, como no restante desse mercado, não são de sonho. Na Futurong, o maior não ultrapassa os 5 000 reais. Nessa conta não entram os dirigentes do primeiro escalão, que geralmente não são remunerados. Antes andava de carro importado. Hoje tenho um carro popular, mas estou feliz pela importância do trabalho, diz Lucas.


NÃO É FÁCIL

No mundo todo, já passaram pelo processo da SGS 90 entidades. Dessas, 68 foram certificadas. Prova que não é fácil conseguir a certificação é que uma das que não alcançou os 70% mínimos na avaliação foi o reconhecido Instituto Ayrton Senna. Convidado pela empresa suíça a participar da auditoria, o instituto está fazendo ajustes para obter a certificação. Tivemos notas muito altas em diversos pontos, mas eles indicaram três alterações na estrutura e nós estamos fazendo. Agora, aguardamos os resultados, diz Margareth Goldenberg, diretora do instituto.
 

Mesmo que a ONG em que você pretende trabalhar não tenha a certificação, a presença de instituições certificadas no mercado deve pressionar as que ainda não têm a buscar uma gestão profissionalizada. De uma forma geral, é um setor incipiente no quesito gestão, diz Luiz Carlos, da FGV/SP. As empresas do Terceiro Setor devem experimentar algo semelhante ao que aconteceu com as certificações ISO, que atestam a qualidade na indústria e viraram febre nos anos 90, melhorando os índices de governança e gestão no mercado como um todo.

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